Os sintomas são incómodos para alunos e professores e podem ter consequências graves a longo prazo.
Poderia elencar muitos dos males
de que, hoje, padece a escola portuguesa. Vou falar apenas na
“examinite aguda”, que desejo sinceramente que não passe a “examinite
crónica”. Com pés de lã, no início, com passadas bem fortes,
presentemente, aí estão os exames, a multiplicar-se e a dominar a vida
das escolas. Cresceram em abrangência de anos de escolaridade e de
disciplinas, aumentaram em peso na avaliação. Isso de avaliação contínua
é um conceito em desuso ou em profunda transmutação.
E se fossem só exames!... Para que os alunos se preparem bem para os
exames, aí estão os testes intermédios. E aos testes intermédios vindos
do MEC, as escolas acrescentam, nas disciplinas em que o MEC os não
proporciona, testes intermédios elaborados por si próprias.
E assim, entre outros males, a nossa escola padece hoje de “examinite
aguda”. Os sintomas são incómodos para alunos e professores e podem ter
consequências graves a longo prazo. Os professores têm andado e
continuarão a andar sobrecarregados e completamente desgastados com
ainda mais tarefas burocráticas, como, por exemplo, várias reuniões
(para discutir a aplicação dos testes intermédios/exames, para fazer os
testes intermédios que são elaborados pelas escolas, para definir as
informações a dar aos alunos e famílias, para definir e divulgar os
critérios de avaliação, etc.), já para não falar do imenso e minucioso
trabalho de correção e classificação desses testes e dos exames. O
ensino, necessariamente, acaba por se centrar nas competências e
conhecimentos testáveis através de exames, com prejuízo de outras
aprendizagens fundamentais a que os estudantes não vão poder ter acesso,
por falta de tempo para o efeito. E que dizer das aulas das mais
diversas disciplinas que não foram lecionadas para que sejam feitos os
tais testes intermédios, realizados no mesmo dia e à mesma hora em todo o
país?
E o que pensar do facto de os exames do 4.º e do 6.º anos se realizarem
antes de terminado o ano letivo? Se eles contemplam toda a matéria, isto
significa que ela tem menos tempo para ser lecionada. Aumentará isto a
qualidade do ensino? E depois de realizados os exames, considerarão os
alunos que o ano letivo ainda não acabou? Darão algum valor às aulas do
resto do ano? E o que pensarão os estudantes dos vários ciclos acerca
das disciplinas que não têm exame, se o próprio MEC as define como não
fundamentais? Vale a pena estar com atenção e estudar a matéria dessas
disciplinas? Afinal, o exame é que parece ser importante!
Finalmente, haverá, no
entanto, certamente, muitas mais horas de trabalho não contabilizado nem
remunerado para os professores do Estado (que aplicarão e corrigirão os
exames) e lucro para essa entidade privada, que publica livros e outros
materiais didáticos e que tem institutos de ensino de língua inglesa
espalhados pelo país, já para não falar do preço dos diplomas (mesmo que
sejam facultativos). Será que os nossos alunos vão conseguir falar
inglês com mais fluência e correção porque vão fazer (obrigatoriamente)
uma prova oral nesse exame? Ou aprenderiam mais se tivessem realmente
tempo de praticar a oralidade nas aulas de Inglês? Como se lhes pode dar
essa oportunidade nas aulas? Como se pode dar a cada um dos 30 alunos
de uma turma de 9.º ano (ou de qualquer outro dos anos de escolaridade
anteriores) “tempo de antena” para falarem em inglês com frequência (e
até mesmo sem ela) nos 90 mais 45 minutos semanais da disciplina?
Neste espaço tentei aflorar alguns dos sintomas desta “examinite aguda” e
levantar questões relativas às consequências. Esta doença está a entrar
na rotina de uma forma preocupante, pelo que o tema merece grande
reflexão e debate aprofundado.
(Texto adaptado)